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MENSAGEM DO PAPA FRANCISCOPARA O DIA MUNDIAL DO MIGRANTE E DO REFUGIADO 2016

Queridos irmãos e irmãs!
Na bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia recordei que «há
momentos em que somos chamados, de maneira ainda mais intensa, a fixar o olhar
na misericórdia, para nos tornarmos nós mesmos sinal eficaz do agir do Pai»
(Misericordiae Vultus, 3). De facto, o amor de Deus quer chegar a todos e cada um,
transformando aqueles que acolhem o abraço do Pai noutros tantos braços que se
abrem e abraçam para que todo o ser humano saiba que é amado como filho e se
sinta «em casa» na única família humana. Deste modo, a ternura paterna de Deus,
que se estende solícita sobre todos, mostra-se particularmente sensível às
necessidades da ovelha ferida, cansada ou enferma, como faz o pastor com o
rebanho. Foi assim que Jesus Cristo nos falou do Pai, dizendo que Ele Se inclina
sobre o homem chagado de miséria física ou moral e, quanto mais se agravam as
suas condições, tanto mais se revela a eficácia da misericórdia divina.
Neste nosso tempo, os fluxos migratórios aparecem em contínuo aumento por toda
a extensão do planeta: prófugos e pessoas em fuga da sua pátria interpelam os
indivíduos e as colectividades, desafiando o modo tradicional de viver e, por vezes,
transtornando o horizonte cultural e social com os quais se confrontam. Com
frequência sempre maior, as vítimas da violência e da pobreza, abandonando as
suas terras de origem, sofrem o ultraje dos traficantes de pessoas humanas na
viagem rumo ao sonho dum futuro melhor. Se, entretanto, sobrevivem aos abusos
e às adversidades, devem enfrentar realidades onde se aninham suspeitas e
medos. Enfim, não raramente, embatem na falta de normativas claras e praticáveis
que regulem a recepção e prevejam itinerários de integração a breve e a longo
prazo, atendendo aos direitos e deveres de todos. Hoje, mais do que no passado, o
Evangelho da misericórdia sacode as consciências, impede que nos habituemos ao
sofrimento do outro e indica caminhos de resposta que se radicam nas virtudes
teologais da fé, da esperança e da caridade, concretizando-se nas obras de
misericórdia espiritual e corporal.
Na base desta constatação, quis que o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado de
2016 fosse dedicado ao tema: «Os emigrantes e refugiados interpelam-nos. A
resposta do Evangelho da misericórdia». Os fluxos migratórios constituem já uma
realidade estrutural, e a primeira questão que se impõe refere-se à superação da
fase de emergência para dar espaço a programas que tenham em conta as causas
das migrações, das mudanças que se produzem e das consequências que imprimem
novos rostos às sociedades e aos povos. Todos os dias, porém, as histórias
dramáticas de milhões de homens e mulheres interpelam a comunidade
internacional, testemunha de inaceitáveis crises humanitárias que surgem em
muitas regiões do mundo. A indiferença e o silêncio abrem a estrada à

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cumplicidade, quando assistimos como expectadores às mortes por sufocamento,
privações, violências e naufrágios. De grandes ou pequenas dimensões, sempre
tragédias são; mesmo quando se perde uma única vida humana.
Os emigrantes são nossos irmãos e irmãs que procuram uma vida melhor longe da
pobreza, da fome, da exploração e da injusta distribuição dos recursos do planeta,
que deveriam ser divididos equitativamente entre todos. Porventura não é desejo
de cada um melhorar as próprias condições de vida e obter um honesto e legítimo
bem-estar que possa partilhar com os seus entes queridos?
Neste momento da história da humanidade, fortemente marcado pelas migrações, a
questão da identidade não é uma questão de importância secundária. De facto,
quem emigra é forçado a modificar certos aspectos que definem a sua pessoa e,
mesmo sem querer, obriga a mudar também quem o acolhe. Como viver estas
mudanças de modo que não se tornem obstáculo ao verdadeiro desenvolvimento,
mas sejam ocasião para um autêntico crescimento humano, social e espiritual,
respeitando e promovendo aqueles valores que tornam o homem cada vez mais
homem no justo relacionamento com Deus, com os outros e com a criação?
De facto, a presença dos emigrantes e dos refugiados interpela seriamente as
diferentes sociedades que os acolhem. Estas devem enfrentar factos novos que
podem aparecer imprudentes se não forem adequadamente motivados, geridos e
regulados. Como fazer para que a integração se torne um enriquecimento mútuo,
abra percursos positivos para as comunidades e previna o risco da discriminação,
do racismo, do nacionalismo extremo ou da xenofobia?
A revelação bíblica encoraja a recepção do estrangeiro, motivando-a com a certeza
de que, assim fazendo, abrem-se as portas a Deus e, no rosto do outro,
manifestam-se os traços de Jesus Cristo. Muitas instituições, associações,
movimentos, grupos comprometidos, organismos diocesanos, nacionais e
internacionais experimentam o encanto e a alegria da festa do encontro, do
intercâmbio e da solidariedade. Eles reconheceram a voz de Jesus Cristo: «Olha
que Eu estou à porta e bato» (Ap 3, 20). E todavia não cessam de multiplicar-se
também os debates sobre as condições e os limites que se devem pôr à recepção,
não só nas políticas dos Estados, mas também nalgumas comunidades paroquiais
que vêem ameaçada a tranquilidade tradicional.
Diante de tais questões, como pode a Igreja agir senão inspirando-se no exemplo e
nas palavras de Jesus Cristo? A resposta do Evangelho é a misericórdia.
Em primeiro lugar, esta é dom de Deus Pai revelado no Filho: de facto, a
misericórdia recebida de Deus suscita sentimentos de jubilosa gratidão pela
esperança que nos abriu o mistério da redenção no sangue de Cristo. Depois, a
misericórdia alimenta e robustece a solidariedade para com o próximo, enquanto
exigência de resposta ao amor gratuito de Deus, que «foi derramado nos nossos
corações pelo Espírito Santo» (Rm 5, 5). Aliás, cada um de nós é responsável pelo
seu vizinho: somos guardiões dos nossos irmãos e irmãs, onde quer que vivam. O
cultivo de bons contactos pessoais e a capacidade de superar preconceitos e medos
são ingredientes essenciais para se promover a cultura do encontro, onde cada um
esteja disposto não só a dar, mas também a receber dos outros. De facto, a
hospitalidade vive do dar e receber.
Nesta perspectiva, é importante olhar para os emigrantes não somente com base
na sua condição de regularidade ou irregularidade, mas sobretudo como pessoas
que, tuteladas na sua dignidade, podem contribuir para o bem-estar e o progresso

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de todos, de modo particular quando assumem responsavelmente deveres com
quem os acolhe, respeitando gratamente o património material e espiritual do país
que os hospeda, obedecendo às suas leis e contribuindo para os seus encargos. Em
todo o caso, não se podem reduzir as migrações à dimensão política e normativa,
às implicações económicas e à mera coexistência de culturas diferentes no mesmo
território. Estes aspectos são complementares da defesa e promoção da pessoa
humana, da cultura do encontro dos povos e da unidade, onde o Evangelho da
misericórdia inspira e estimula itinerários que renovam e transformam a
humanidade inteira.
A Igreja coloca-se ao lado de todos aqueles que se esforçam por defender o direito
de cada pessoa a viver com dignidade, exercendo antes de mais nada o direito a
não emigrar a fim de contribuir para o desenvolvimento do país de origem. Esse
processo deveria incluir, no seu primeiro nível, a necessidade de ajudar os países
donde partem os emigrantes e prófugos. Assim se confirma que a solidariedade, a
cooperação, a interdependência internacional e a distribuição equitativa dos bens
da terra são elementos fundamentais para actuar, em profundidade e com eficácia,
sobretudo nas áreas de partida dos fluxos migratórios, para que cessem aquelas
carências que induzem as pessoas, de forma individual ou colectiva, a abandonar o
seu próprio ambiente natural e cultural. Em todo o caso, é necessário esconjurar,
se possível já na origem, as fugas dos prófugos e os êxodos impostos pela pobreza,
a violência e as perseguições.
Sobre isto, é indispensável que a opinião pública seja informada de modo correcto,
até para prevenir medos injustificados e especulações sobre a pele dos emigrantes.
Ninguém pode fingir que não se sente interpelado pelas novas formas de
escravidão geridas por organizações criminosas que vendem e compram homens,
mulheres e crianças como trabalhadores forçados na construção civil, na
agricultura, na pesca ou noutros âmbitos de mercado. Quantos menores são, ainda
hoje, obrigados a alistar-se nas milícias que os transformam em meninos-soldados!
Quantas pessoas são vítimas do tráfico de órgãos, da mendicidade forçada e da
exploração sexual! Destes crimes aberrantes fogem os prófugos do nosso tempo,
que interpelam a Igreja e a comunidade humana, para que também eles possam
ver, na mão estendida de quem os acolhe, o rosto do Senhor, «o Pai das
misericórdias e o Deus de toda a consolação» (2 Cor 1, 3).
Queridos irmãos e irmãs emigrantes e refugiados! Na raiz do Evangelho da
misericórdia, o encontro e a recepção do outro entrelaçam-se com o encontro e a
recepção de Deus: acolher o outro é acolher a Deus em pessoa! Não deixeis que
vos roubem a esperança e a alegria de viver que brotam da experiência da
misericórdia de Deus, que se manifesta nas pessoas que encontrais ao longo dos
vossos caminhos! Confio-vos à Virgem Maria, Mãe dos emigrantes e dos refugiados,
e a São José, que viveram a amargura da emigração no Egipto. À intercessão deles,
confio também aqueles que dedicam energias, tempo e recursos ao cuidado, tanto
pastoral como social, das migrações. De coração a todos concedo a Bênção
Apostólica.

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DISCURSO DO PAPA FRANCISCO

[…] Por outro lado, qual é o motivo desta iniciativa, que me pareceu uma ideia —
da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, de D. Sánchez Sorondo — muito
fecunda, de convidar os Presidentes das câmaras municipais de médias e grandes
cidades, para vir aqui e falar sobre isto? Porque um dos aspectos que mais se
notam, quando não se cuida do meio ambiente, da criação, é o crescimento
incomensurável das cidades. Trata-se de um fenómeno mundial. É como se as
cabeças, as grandes cidades, se desenvolvessem, mas sempre com bolsas de
pobreza e de miséria cada vez maiores, onde as pessoas padecem os efeitos da
degradação ambiental. E neste sentido, envolve o fenómeno migratório. Por que
razão as pessoas chegam às grandes cidades, engrossando as bolsas de pobreza
das grandes cidades — as «villas miseria», as barracas, as favelas? Por que fazem
isto? Simplesmente porque o mundo rural não lhes oferece oportunidades. E um
ponto que se encontra inserido na Encíclica — com muito respeito, mas é
necessário denunciá-lo — é a idolatria da tecnocracia. A tecnocracia leva a destruir
o trabalho e cria desemprego. Os fenómenos de desemprego são muito grandes, e
por isso as pessoas são obrigadas a emigrar, procurando novos horizontes. O
número crescente de desempregados é alarmante! Não disponho de estatísticas,
mas em determinados países da Europa, sobretudo entre os jovens, o desemprego
juvenil — de 25 para baixo — supera 40 por cento e nalguns casos chega a 50 por
cento. De 40 a 47 — refiro-me a outros países — e 50. Penso noutras estatísticas
sérias apresentadas pessoalmente por Chefes de Governo, por Chefes de Estado. E
isto, projectado no futuro, leva-nos a ver um fantasma, ou seja, uma juventude
desempregada que, hoje, qual horizonte e porvir pode oferecer? O que sobra para
esta juventude: as dependências, o aborrecimento, a incerteza sobre o que fazer da
própria existência — uma vida sem sentido, muito dura, ou o suicídio juvenil — as
estatísticas de suicídio dos jovens não são publicadas na sua totalidade — ou
procurar um ideal de vida noutros horizontes, inclusive em programas de guerrilha.
[…]
[…] O que acontece quando todos estes fenómenos de tecnicização excessiva, sem
preocupação pelo meio ambiente, além dos fenómenos naturais, incidem sobre a
migração? O desemprego e depois o tráfico de pessoas. É cada vez mais frequente
o trabalho ilegal, o trabalho sem contrato, o trabalho «arranjado debaixo da mesa».
Como aumentou! O trabalho ilegal é muito difundido, e isto significa que as pessoas
não ganham o suficiente para viver. Isto pode provocar atitudes criminosas e tudo
o que acontece nas grandes cidades em função das migrações causadas pela
tecnicização excessiva. Refiro-me principalmente ao ambiente agrícola, mas
também ao tráfico de pessoas no trabalho mineiro. A escravidão mineira é vasta e
muito forte. E àquilo que significa o uso de determinados elementos no tratamento
dos minerais — arsénico, cianeto… — que levam a população a adoecer. Nisto
existe uma enorme responsabilidade. Ou seja, tudo se repercute, tudo volta para

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trás, tudo… Trata-se do efeito de repercussão contra a própria pessoa. Pode ser o
tráfico de seres humanos para o trabalho escravo e a prostituição, que constituem
fontes de trabalho, para poder sobreviver hoje em dia.
Por isso, estou feliz por saber que meditastes a respeito de tais problemáticas —
mencionei apenas algumas delas — que atingem as grandes cidades. Em última
análise, diria que disto se devem interessar as Nações Unidas. Tenho muita
esperança no encontro de Paris, que se realizará no próximo mês de Novembro:
esperemos que se alcance um acordo fundamental, básico. Tenho muita esperança!
No entanto, as Nações Unidas devem interessar-se profundamente desta questão,
principalmente do tráfico de pessoas provocado por este fenómeno ambiental, da
exploração das pessoas.[…]

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MENSAGEM DO PAPA FRANCISCOAO PRESIDENTE DO PONTIFÍCIO CONSELHO JUSTIÇA E PAZPOR OCASIÃO DO ENCONTRO DOS REPRESENTANTESDE COMUNIDADES DO SECTOR MINEIROSOBRE O TEMA «UNIDOS A DEUS OUVIMOS UM GRITO»ROMA, 17-19 DE JULHO DE 2015]

[…] Vindes de situações diferentes e experimentais de várias maneiras as
repercussões das actividades mineiras, sejam elas realizadas por grandes
companhias industriais, por artesãos ou agentes informais. Quisestes reunir-vos em
Roma, neste dia de reflexão que faz referência a um trecho da Exortação apostólica
Evangelii gaudium (cf. 187-190), para fazer ressoar o grito das numerosas pessoas,
famílias e comunidades que sofrem directa ou indirectamente por causa das
consequências muitas vezes negativas das actividades mineiras. Um grito pelos
terrenos perdidos; um grito pela extracção de riquezas do solo que paradoxalmente
não produziu riqueza para as populações locais que permaneceram pobres; um
grito de dor como reacção às violências, às ameaças e à corrupção; um grito de
indignação e de ajuda pelas violações dos direitos humanos, espezinhados
clamorosamente ou de forma discreta no que concerne à saúde das populações, às
condições de trabalho, por vezes à escravidão e ao tráfico de pessoas que alimenta
o trágico fenómeno da prostituição; um grito de tristeza e de impotência pela
poluição das águas, do ar e do solo; um grito de incompreensão pela ausência dos
processos inclusivos e de apoio por parte daquelas autoridades civis, locais e
nacionais, que têm o dever fundamental de promover o bem comum.[…]

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SANTA MISSAHOMILIA DO SANTO PADRE

[…]2. Segundo momento: a fuga para o Egipto. Tiveram de partir, exilar-Se. Em
Belém, não só não havia lugar nem família, mas até mesmo as suas vidas corriam
perigo. Tiveram que sair, partindo para uma terra estrangeira. Foram emigrantes

perseguidos pela cobiça e a ganância do Rei Herodes. E lá ela também poderia ter-
se perguntado: Onde está aquilo que o Anjo Me disse? […]

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ENCONTRO COM AS AUTORIDADES CIVISDISCURSO DO SANTO PADRE

Irmão Presidente,
Irmãos e irmãs,
[…] Uma nação, que procura o bem comum, não pode fechar-se em si mesma; as
redes de relações abonam a sociedade. Assim no-lo demonstra o problema da
emigração nos nossos dias. Hoje é indispensável o desenvolvimento da diplomacia
com os países vizinhos, que evite os conflitos entre povos irmãos e contribua para
um diálogo franco e aberto dos problemas. E estou a pensar agora sobre a questão
do mar: o diálogo é indispensável. Construir pontes, em vez de erguer muros.
Todos os temas, por mais espinhosos que sejam, têm soluções compartilháveis,
têm soluções razoáveis, equitativas e duradouras. E, em todo o caso, nunca devem
ser motivo de agressividade, rancor ou inimizade, que agravam mais a situação e
tornam mais difícil a sua solução. […]

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ENCONTRO COM A SOCIEDADE CIVILDISCURSO DO SANTO PADRE

Cari amici,
[…] O Equador, como muitos povos latino-americanos, passa hoje por profundas
mudanças sociais e culturais, novos desafios que requerem a participação de todos
os actores sociais. A emigração, a concentração urbana, o consumismo, a crise da
família, a falta de trabalho, as bolsas de pobreza produzem incerteza e tensões que
constituem uma ameaça para a convivência social. As normas e as leis, bem como
os projectos da comunidade civil, devem procurar a inclusão, abrir espaços de
diálogo, espaços de encontro e, assim, deixar como uma triste recordação qualquer
tipo de repressão, de controle excessivo e a perda de liberdade. A esperança dum
futuro melhor passa por oferecer oportunidades reais aos cidadãos, especialmente
aos jovens, criando emprego, com um crescimento económico que chegue a todos
e não se fique pelas estatísticas macroeconómicas; criar um desenvolvimento
sustentável que gere um tecido social firme e bem coeso. Se não há solidariedade,
isso é impossível. Referi-me aos jovens e me referi à falta de trabalho. Isso é
mundialmente alarmante. Países europeus, que estavam na primeira linha há
décadas, agora estão sofrendo com a população juvenil – de vinte cinco anos para
baixo – onde há entre quarenta e cinquenta porcento de desemprego. Se não há
solidariedade, isso não se soluciona. Eu dizia aos salesianos: “Vós a quem Dom
Bosco criou para educar: hoje é preciso uma educação de emergência para estes
jovens que não têm trabalho!” Por que? Emergência para prepará-los para
pequenos trabalhos que lhes outorguem a dignidade de poder levar o pão para a
casa. Quais horizontes sobram para estes jovens desempregados que são os que
chamamos os “nem nem” – nem estudam, nem trabalham. Os vícios, a tristeza, a
depressão, o suicídio – não se publicam integralmente as estatísticas do suicídio
juvenil – o inscrever-se em projectos de loucura social, que ao menos lhes
apresentam um ideal? Hoje nos é pedido cuidar, de modo especial, com
solidariedade, deste terceiro sector de exclusão da cultura do descarte. O primeiro
sector são as crianças, porque ou não se ama-as – há países desenvolvidos que
têm uma taxa de natalidade de quase zero porcento -, ou não se ama-as ou se as
assassina antes que nasçam. Depois, o segundo sector são os idosos, a quem se
abandona, se vai deixando e se esquece que eles são a sabedoria e a memória do
seu povo. São descartados. Agora é a vez dos jovens. Com quem fica o lugar? Com
os servidores do egoísmo, do deus dinheiro que está no centro de um sistema que
nos esmaga a todos. […]

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PARTICIPAÇÃO AO II ENCONTRO MUNDIAL DOS MOVIMENTOS POPULARESDISCURSO DO SANTO PADRE

Irmãos e irmãs, boa tarde!
[…] Vós, a partir dos movimentos populares, assumis as tarefas comuns motivados
pelo amor fraterno, que se rebela contra a injustiça social. Quando olhamos o rosto
dos que sofrem, o rosto do camponês ameaçado, do trabalhador excluído, do
indígena oprimido, da família sem tecto, do imigrante perseguido, do jovem
desempregado, da criança explorada, da mãe que perdeu o seu filho num tiroteio
porque o bairro foi tomado pelo narcotráfico, do pai que perdeu a sua filha porque
foi sujeita à escravidão; quando recordamos estes «rostos e estes nomes»
estremecem-nos as entranhas diante de tanto sofrimento e comovemo-nos, todos
nos comovemos…. Porque «vimos e ouvimos», não a fria estatística, mas as feridas
da humanidade dolorida, as nossas feridas, a nossa carne. Isto é muito diferente da
teorização abstracta ou da indignação elegante. Isto comove-nos, move-nos e
procuramos o outro para nos movermos juntos. Esta emoção feita acção
comunitária é incompreensível apenas com a razão: tem um plus de sentido que só
os povos entendem e que confere a sua mística particular aos verdadeiros
movimentos populares. […]
[…] Temos de reconhecer que nenhum dos graves problemas da humanidade pode
ser resolvido sem a interacção dos Estados e dos povos a nível internacional.
Qualquer acto de envergadura realizado numa parte do Planeta repercute-se no
todo em termos económicos, ecológicos, sociais e culturais. Até o crime e a
violência se globalizaram. Por isso, nenhum governo pode actuar à margem duma
responsabilidade comum. Se queremos realmente uma mudança positiva, temos de
assumir humildemente a nossa interdependência, ou seja, nossa sã
interdependência. Mas interacção não é sinónimo de imposição, não é subordinação
de uns em função dos interesses dos outros. O colonialismo, novo e velho, que
reduz os países pobres a meros fornecedores de matérias-primas e mão de obra
barata, gera violência, miséria, emigrações forçadas e todos os males que vêm
juntos… precisamente porque, ao pôr a periferia em função do centro, nega-lhes o
direito a um desenvolvimento integral. E isto, irmãos, é desigualdade, e a
desigualdade gera violência que nenhum recurso policial, militar ou dos serviços
secretos será capaz de deter.[…]

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VISITA AO TEMPLO VALDENSE DE TURIMPALAVRAS DO SANTO PADRE

Queridos irmãos e irmãs
[…] Encorajados por estes passos, somos chamados a continuar a caminhar juntos.
A evangelização é um dos âmbitos nos quais se abrem amplas oportunidades de
colaboração entre valdenses e católicos. Conscientes de que o Senhor nos precedeu
e sempre nos precede no amor (1 Jo 4, 10), vamos juntos ao encontro dos homens
e das mulheres de hoje, que por vezes parecem tão distraídos e indiferentes, para
lhes transmitir o âmago do Evangelho, ou seja, «a beleza do amor salvífico de Deus
manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado» (Exort. apost. Evagelii
gaudium, 36). Outro âmbito no qual podemos trabalhar cada vez mais unidos é o
serviço à humanidade que sofre, aos pobres, aos doentes, aos migrantes.
Agradeço-lhe pelo que disse sobre os migrantes. Da obra libertadora da graça em
cada um de nós deriva a exigência de testemunhar o rosto misericordioso de Deus
que cuida de todos e, em particular, de quem se encontra em estado de
necessidade. A escolha dos pobres, dos últimos, de quantos estão excluídos da
sociedade, aproxima-nos do próprio coração de Deus, que se fez pobre para nos
enriquecer com a sua pobreza (cf. 2 Cor 8, 9) e, por conseguinte, aproxima-nos
mais uns dos outros. As diferenças sobre importantes questões antropológicas e
éticas, que continuam a existir entre católicos e valdenses, não impedem que
possamos encontrar formas de colaboração nestes e noutros âmbitos. Se
caminharmos juntos, o Senhor ajudar-nos-á a viver aquela comunhão que precede
todos os contrastes.[…]

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ENCONTRO COM OS JOVENSDISCURSO DO SANTO PADRE

[…] E passo a responder à pergunta de Luigi: ele falava de um projecto de partilha,
ou seja, de ligação, de construção. Devemos dar continuidade aos nossos projectos
de construção, e assim esta vida não desilude. Se te associares a um projecto de
construção, de ajuda — pensemos nas crianças de rua, nos migrantes, em tantos
que vivem em necessidade, e não para lhes dar de comer só um, dois dias, mas
para os promover com a educação, com a unidade na alegria dos Oratórios e tantas
coisas, mas realidades que edificam, então afasta-se, esmorece aquele sentido de
desconfiança na vida. Que devo fazer por isto? Não se aposentar demasiado cedo:
agir. Agir . E digo o seguinte: ir contracorrente. Ir contracorrente. Para vós, jovens,
que viveis esta situação económica, também cultural, hedonista, consumista com
os valores de «bolhas de sabão», com estes valores não se vai a lado algum. Fazer
coisas construtivas, mesmo se são pequenas, mas que nos unam aos nossos ideais:
é este o melhor antídoto contra a desconfiança da vida, contra esta cultura que te
oferece apenas o prazer: estar bem, ter dinheiro e não pensar noutras coisas. […]

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ENCONTRO COM O MUNDO DO TRABALHODISCURSO DO SANTO PADRE

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
[…] O trabalho não é necessário só para a economia, mas para a pessoa humana,
para a sua dignidade, para a sua cidadania e também para a inclusão social. Turim
é historicamente um pólo de atracção laboral, mas hoje ressente em grande
medida da crise: falta o trabalho, aumentaram as desigualdades económicas e
sociais, muitas pessoas empobreceram e têm problemas de casa, saúde, instrução
e de outros bens primários. A imigração aumenta a competição, mas os migrantes
não devem ser culpabilizados, porque são vítimas das iniquidades, desta economia
que descarta e das guerras. Entristece ver o espectáculo destes dias, no qual seres
humanos são tratados como mercadoria![…]