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PAPA FRANCISCO ANGELUS

Depois do Angelus
[…] Amanhã celebra-se o Dia de oração e reflexão contra o tráfico de pessoas, que
oferece a todos a oportunidade de ajudar os novos escravos de hoje a romper as
pesadas correntes da exploração para voltar a apoderar-se da sua liberdade e
dignidade. Penso de modo particular em tantas mulheres e homens, em tantas
crianças! É preciso envidar todos os esforços para debelar este crime e esta
vergonha intolerável. […]

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DISCURSO DO PAPA FRANCISCO AOS PARTICIPANTES NO CAPÍTULO GERAL DA ORDEM DE NOSSA SENHORA DAS MERCÊS (MERCEDÁRIOS) POR OCASIÃO DO OITAVO CENTENÁRIO DA ORDEM

Estimados irmãos e irmãs!
[…] No oitavo centenário da ordem, não deixeis de «proclamar o ano de graça do
Senhor» a todos aqueles junto dos quais sois enviados: aos perseguidos por causa
da sua fé e a quantos ficaram desprovidos da própria liberdade; às vítimas do
tráfico e aos jovens das vossas escolas; a quantos são beneficiados pelas vossas
obras de misericórdia e aos fiéis das paróquias e das missões que vos foram
confiadas pela Igreja. A cada um deles e a toda a família mercedária concedo a
minha Bênção, e recomendo que não se esqueçam também de rezar por mim.

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MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO PARA O DIA MUNDIAL DO MIGRANTE E DO REFUGIADO 2016

Queridos irmãos e irmãs!
[…] Neste nosso tempo, os fluxos migratórios aparecem em contínuo aumento por
toda a extensão do planeta: prófugos e pessoas em fuga da sua pátria interpelam
os indivíduos e as colectividades, desafiando o modo tradicional de viver e, por
vezes, transtornando o horizonte cultural e social com os quais se confrontam. Com
frequência sempre maior, as vítimas da violência e da pobreza, abandonando as
suas terras de origem, sofrem o ultraje dos traficantes de pessoas humanas na
viagem rumo ao sonho dum futuro melhor. Se, entretanto, sobrevivem aos abusos
e às adversidades, devem enfrentar realidades onde se aninham suspeitas e
medos. Enfim, não raramente, embatem na falta de normativas claras e praticáveis
que regulem a recepção e prevejam itinerários de integração a breve e a longo
prazo, atendendo aos direitos e deveres de todos. Hoje, mais do que no passado, o
Evangelho da misericórdia sacode as consciências, impede que nos habituemos ao
sofrimento do outro e indica caminhos de resposta que se radicam nas virtudes
teologais da fé, da esperança e da caridade, concretizando-se nas obras de
misericórdia espiritual e corporal.[…]
[…] Todos os dias, porém, as histórias dramáticas de milhões de homens e
mulheres interpelam a comunidade internacional, testemunha de inaceitáveis crises
humanitárias que surgem em muitas regiões do mundo. A indiferença e o silêncio
abrem a estrada à cumplicidade, quando assistimos como expectadores às mortes
por sufocamento, privações, violências e naufrágios. De grandes ou pequenas
dimensões, sempre tragédias são; mesmo quando se perde uma única vida
humana.
Os emigrantes são nossos irmãos e irmãs que procuram uma vida melhor longe da
pobreza, da fome, da exploração e da injusta distribuição dos recursos do planeta,
que deveriam ser divididos equitativamente entre todos. Porventura não é desejo
de cada um melhorar as próprias condições de vida e obter um honesto e legítimo
bem-estar que possa partilhar com os seus entes queridos?
[…] Como viver estas mudanças de modo que não se tornem obstáculo ao
verdadeiro desenvolvimento, mas sejam ocasião para um autêntico crescimento
humano, social e espiritual, respeitando e promovendo aqueles valores que tornam
o homem cada vez mais homem no justo relacionamento com Deus, com os outros
e com a criação?
De facto, a presença dos emigrantes e dos refugiados interpela seriamente as
diferentes sociedades que os acolhem. Estas devem enfrentar factos novos que

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podem aparecer imprudentes se não forem adequadamente motivados, geridos e
regulados. Como fazer para que a integração se torne um enriquecimento mútuo,
abra percursos positivos para as comunidades e previna o risco da discriminação,
do racismo, do nacionalismo extremo ou da xenofobia?
A revelação bíblica encoraja a recepção do estrangeiro, motivando-a com a certeza
de que, assim fazendo, abrem-se as portas a Deus e, no rosto do outro,
manifestam-se os traços de Jesus Cristo. […]
[…]Diante de tais questões, como pode a Igreja agir senão inspirando-se no
exemplo e nas palavras de Jesus Cristo? A resposta do Evangelho é a
misericórdia.[…]
[…]Nesta perspectiva, é importante olhar para os emigrantes não somente com
base na sua condição de regularidade ou irregularidade, mas sobretudo como
pessoas que, tuteladas na sua dignidade, podem contribuir para o bem-estar e o
progresso de todos, de modo particular quando assumem responsavelmente
deveres com quem os acolhe, respeitando gratamente o património material e
espiritual do país que os hospeda, obedecendo às suas leis e contribuindo para os
seus encargos. Em todo o caso, não se podem reduzir as migrações à dimensão
política e normativa, às implicações económicas e à mera coexistência de culturas
diferentes no mesmo território. Estes aspectos são complementares da defesa e
promoção da pessoa humana, da cultura do encontro dos povos e da unidade, onde
o Evangelho da misericórdia inspira e estimula itinerários que renovam e
transformam a humanidade inteira.
A Igreja coloca-se ao lado de todos aqueles que se esforçam por defender o direito
de cada pessoa a viver com dignidade, exercendo antes de mais nada o direito a
não emigrar a fim de contribuir para o desenvolvimento do país de origem. Esse
processo deveria incluir, no seu primeiro nível, a necessidade de ajudar os países
donde partem os emigrantes e prófugos. Assim se confirma que a solidariedade, a
cooperação, a interdependência internacional e a distribuição equitativa dos bens
da terra são elementos fundamentais para actuar, em profundidade e com eficácia,
sobretudo nas áreas de partida dos fluxos migratórios, para que cessem aquelas
carências que induzem as pessoas, de forma individual ou colectiva, a abandonar o
seu próprio ambiente natural e cultural. Em todo o caso, é necessário esconjurar,
se possível já na origem, as fugas dos prófugos e os êxodos impostos pela pobreza,
a violência e as perseguições.[…]
Ninguém pode fingir que não se sente interpelado pelas novas formas de
escravidão geridas por organizações criminosas que vendem e compram homens,
mulheres e crianças como trabalhadores forçados na construção civil, na
agricultura, na pesca ou noutros âmbitos de mercado. Quantos menores são, ainda
hoje, obrigados a alistar-se nas milícias que os transformam em meninos-soldados!
Quantas pessoas são vítimas do tráfico de órgãos, da mendicidade forçada e da
exploração sexual! Destes crimes aberrantes fogem os prófugos do nosso tempo,
que interpelam a Igreja e a comunidade humana, para que também eles possam
ver, na mão estendida de quem os acolhe, o rosto do Senhor, «o Pai das
misericórdias e o Deus de toda a consolação» (2 Cor 1, 3).

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Queridos irmãos e irmãs emigrantes e refugiados! Na raiz do Evangelho da
misericórdia, o encontro e a recepção do outro entrelaçam-se com o encontro e a
recepção de Deus: acolher o outro é acolher a Deus em pessoa! Não deixeis que
vos roubem a esperança e a alegria de viver que brotam da experiência da
misericórdia de Deus, que se manifesta nas pessoas que encontrais ao longo dos
vossos caminhos! Confio-vos à Virgem Maria, Mãe dos emigrantes e dos refugiados,
e a São José, que viveram a amargura da emigração no Egipto. À intercessão deles,
confio também aqueles que dedicam energias, tempo e recursos ao cuidado, tanto
pastoral como social, das migrações. De coração a todos concedo a Bênção
Apostólica.

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PAPA FRANCISCO ANGELUS

Depois do Angelus
Queridos irmãos e irmãs!
Celebra-se hoje o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado que, no contexto do Ano
Santo da Misericórdia, é celebrado também como Jubileu dos Migrantes. Por
conseguinte, estou feliz por saudar com grande afecto as comunidades étnicas aqui
presentes, todos vós, provenientes de várias regiões da Itália, sobretudo do Lácio.
Queridos migrantes e refugiados, cada um de vós traz consigo uma história, uma
cultura, valores preciosos; e infelizmente muitas vezes também experiências de
miséria, de opressão, de medo. A vossa presença nesta Praça é sinal de esperança
em Deus. Não vos deixeis roubar a esperança e a alegria de viver, que brotam da
experiência da misericórdia divina, graças também às pessoas que vos acolhem e
ajudam. A passagem pela Porta Santa e a Missa que daqui a pouco vivereis, vos
encham o coração de paz. Nesta missa, gostaria de agradecer — e agradecei
também vós comigo — aos encarcerados da prisão de Opera, pelo dom das hóstias

confeccionadas por eles e que serão utilizadas nesta celebração. Daqui, saudemo-
los todos juntos com um aplauso….[…]

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DISCURSO DO PAPA FRANCISCO AO CORPO DIPLOMÁTICO ACREDITADO JUNTO DA SANTA SÉ PARA AS FELICITAÇÕES DE BONS VOTOS

Queridos Embaixadores!
Um espírito individualista é terreno fértil para medrar aquele sentido de indiferença
para com o próximo, que leva a tratá-lo como mero objecto de comércio, que
impele a ignorar a humanidade dos outros e acaba por tornar as pessoas medrosas
e cínicas. Porventura não são estes os sentimentos que muitas vezes nos assaltam
à vista dos pobres, dos marginalizados, dos últimos da sociedade? E são tantos os
últimos na nossa sociedade! Dentre eles, penso sobretudo nos migrantes, com o
peso de dificuldades e tribulações que enfrentam diariamente à procura, por vezes
desesperada, dum lugar onde viver em paz e com dignidade.
Por isso, hoje, queria deter-me a reflectir convosco sobre a grave emergência
migratória que temos estado a enfrentar, para discernir as suas causas,
perspectivar soluções, vencer o medo que inevitavelmente acompanha um
fenómeno assim grande e impressionante, que, durante o ano de 2015, interessou
sobretudo a Europa, mas também várias regiões da Ásia e o Norte e Centro da
América.
«Tem coragem, não tremas, porque o Senhor, teu Deus, estará contigo para onde
quer que fores» (Js 1, 9). É a promessa feita por Deus a Josué, que mostra como o
Senhor acompanha cada pessoa, sobretudo quem vive numa situação de
vulnerabilidade como esta de quem procura refúgio num país estrangeiro. Na
verdade, toda a Bíblia nos conta a história duma humanidade a caminho, pois é
conatural ao homem estar em movimento. A sua história é feita de muitas
migrações, às vezes amadurecidas como consciência do direito a uma livre escolha,
mas frequentemente ditadas por circunstâncias externas. Do desterro do paraíso
terreal até Abraão em marcha para a terra prometida, da história do Êxodo até à
deportação para Babilónia, a Sagrada Escritura narra incómodos e sofrimentos,
desejos e esperanças, que são comuns aos de centenas de milhares de pessoas em
marcha nos nossos dias, com a mesma determinação de Moisés de alcançar uma
terra onde corra «leite e mel» (cf. Ex 3, 17), onde possam viver livres e em paz.[…]
[…] Como então, ouvimos a voz de Jacob que – tendo ouvido dizer que havia trigo
à venda no Egipto – diz aos seus filhos: «Ide lá comprá-lo, para nós continuarmos
vivos e não morrermos» (Gn 42, 2). É a voz daqueles que fogem da miséria
extrema, sem possibilidades de alimentar a família ou ter acesso aos cuidados
médicos e à instrução, fogem da degradação sem perspectivas de qualquer
progresso ou mesmo por causa das alterações climáticas e de condições climáticas
extremas. Sabe-se que, infelizmente, a fome é ainda uma das chagas mais graves
do nosso mundo, com milhões de crianças que morrem anualmente por causa dela.
É triste, porém, constatar que muitas vezes estes migrantes não se enquadram nos
sistemas de protecção baseados nos acordos internacionais. […]

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[…] Infelizmente, hoje como então, ouvimos a voz de Judá sugerir que se venda o
próprio irmão (cf. Gn 37, 26-27). É a arrogância dos poderosos que
instrumentalizam os fracos, reduzindo-os a objectos para fins egoístas ou por
cálculos estratégicos e políticos. Onde é impossível uma migração regular, os
migrantes vêem-se muitas vezes forçados a tomar a opção de se dirigirem a quem
pratica o tráfico ou o contrabando de seres humanos, embora estejam em grande
parte cientes do perigo de perder, durante o percurso, os bens, a dignidade e até
mesmo a vida. Nesta perspectiva, renovo uma vez mais o apelo a deter o tráfico de
pessoas, que mercantiliza os seres humanos, especialmente os mais fracos e
indefesos. Nas nossas mentes e nos nossos corações, permanecerão
indelevelmente gravadas as imagens das crianças mortas no mar, vítimas dos
homens sem escrúpulos e da inclemência da natureza. Depois, quem sobrevive e
chega a um país que o acolhe leva consigo indelevelmente as cicatrizes profundas
destas experiências, além das relacionadas com os horrores que sempre
acompanham guerras e violências.
Como então, também hoje se ouve o Anjo repetir: «Levanta-te, toma o menino e
sua mãe, foge para o Egipto e fica lá até que eu te avise» (Mt 2, 13). É a voz
escutada pelos inúmeros migrantes que nunca deixariam o seu país se, a isso
mesmo, não fossem constrangidos. Entre eles, há numerosos cristãos que, no
decurso dos últimos anos, têm abandonado de forma cada vez mais maciça as suas
terras, onde habitaram desde as origens do cristianismo.[…]
[…] Desde há muito tempo que se poderia ter enfrentado grande parte das causas
das migrações; e, deste modo, teria sido possível prevenir tantas desgraças ou,
pelo menos, mitigar as suas consequências mais atrozes. E hoje, antes que seja
tarde demais, muito se pode fazer para impedir as tragédias e construir a paz. Mas
isto significaria pôr em discussão hábitos e práticas consolidadas, a começar pelas
problemáticas relacionadas com o comércio dos armamentos, até ao problema da
conservação de matérias-primas e energia, aos investimentos, às políticas de
financiamento e apoio ao desenvolvimento, até à grave chaga da corrupção. Além
disso, devemos estar cientes da necessidade que há, em tema de migração, de
estabelecer projectos de médio e longo prazo que ultrapassem a resposta de
emergência; deveriam ajudar realmente à integração dos migrantes nos países de
acolhimento e, ao mesmo tempo, favorecer o desenvolvimento dos países de
origem com políticas solidárias, mas sem condicionar as ajudas a estratégias e
práticas ideologicamente alheias ou contrárias às culturas dos povos a que se
destinam.
Sem esquecer outras situações dramáticas – nomeadamente a que se vive na
fronteira entre o México e os Estados Unidos da América, que tocarei ao de leve
quando for a Ciudad Juárez no próximo mês –, gostaria de dedicar um pensamento
especial à Europa. Na verdade, ao longo do ano passado, viu-se afectada por um
fluxo impressionante de refugiados (tendo muitos deles encontrado a morte na
tentativa de a alcançar), que não tem precedentes na sua história recente, nem
mesmo no final da II Guerra Mundial. Muitos migrantes, originários da Ásia e da
África, vêem na Europa um ponto de referência por princípios, como a igualdade
perante a lei, e valores inscritos na própria natureza de cada ser humano, como a
inviolabilidade da dignidade e da igualdade de cada pessoa, o amor ao próximo sem

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distinção de origem nem de raça, a liberdade de consciência e a solidariedade com
o seu semelhante.
Todavia estes desembarques maciços nas costas do Velho Continente parecem
fazer vacilar o sistema de acolhimento laboriosamente construído sobre as cinzas
do segundo conflito mundial, que constitui ainda um farol de humanidade a servir
de referência. Perante a imensidão dos fluxos e os problemas inevitavelmente
relacionados, surgiram muitas dúvidas sobre as reais possibilidades de recepção e
adaptação das pessoas, sobre a mudança do meio cultural e social dos países de
acolhimento, bem como a redefinição de alguns equilíbrios geopolíticos regionais.
Relevantes são igualmente os temores pela segurança, exacerbados
desmedidamente pela difusa ameaça do terrorismo internacional. A vaga migratória
actual parece minar as bases daquele «espírito humanista» que a Europa ama e
defende desde sempre.[6] Mas não se pode dar ao luxo de perder os valores e os
princípios de humanidade, de respeito pela dignidade de cada pessoa, de
subsidiariedade e de mútua solidariedade, mesmo que, em alguns momentos da
história, possam constituir um fardo difícil de levar. Por isso, desejo reiterar a
minha convicção de que a Europa, ajudada pelo seu grande património cultural e
religioso, possui os instrumentos para defender a centralidade da pessoa humana e
encontrar o justo equilíbrio entre estes dois deveres: o dever moral de tutelar os
direitos dos seus cidadãos e o dever de garantir a assistência e o acolhimento dos
migrantes.[7]
Ao mesmo tempo, sinto a necessidade de exprimir gratidão por todas as iniciativas
tomadas para favorecer uma recepção digna das pessoas, nomeadamente o Fundo
Migrantes e Refugiados do Banco de Desenvolvimento do Conselho da Europa, e
também pelo empenhamento dos países que demonstraram uma generosa atitude
de partilha; refiro-me, antes de mais nada, às nações vizinhas da Síria, que deram
respostas imediatas de assistência e acolhimento, sobretudo o Líbano, onde os
refugiados constituem um quarto da população total, e a Jordânia, que não fechou
as fronteiras, apesar de abrigar já centenas de milhares de refugiados. De igual
modo, não devemos esquecer os esforços doutros países empenhados na
vanguarda, entre os quais se conta especialmente a Turquia e a Grécia. Desejo
expressar um agradecimento particular à Itália, cujo decidido empenho salvou
muitas vidas no Mediterrâneo e que ainda se ocupa no seu território dum grande
número de refugiados. Espero que o tradicional sentido de hospitalidade e
solidariedade que caracteriza o povo italiano não fique enfraquecido pelas
inevitáveis dificuldades do momento presente, mas, à luz de sua milenária tradição,
seja capaz de acolher e integrar a contribuição social, económica e cultural que os
migrantes possam prestar.
É importante não deixar sozinhas as nações que, na vanguarda, estão enfrentando
a situação actual de emergência, tornando-se igualmente indispensável dar início a
um diálogo franco e respeitoso entre todos os países implicados no problema –
países de origem, de trânsito ou de recepção – procurando, com maior audácia
criativa, soluções novas e sustentáveis. Realmente, na actual conjuntura, não se
pode pensar em soluções perseguidas de forma individualista por um Estado,
porque as consequências das opções de cada um recaem inevitavelmente sobre
toda a comunidade internacional. Com efeito, sabe-se que as migrações
constituirão uma pedra angular do futuro do mundo, mais do que o têm sido até
agora, e que as respostas só poderão ser fruto dum trabalho comum, que respeite

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a dignidade humana e os direitos das pessoas. A Agenda de Desenvolvimento,
adoptada em Setembro passado pelas Nações Unidas para os próximos 15 anos,
que aborda muitos dos problemas que impelem à migração, bem como outros
documentos da comunidade internacional visando gerir a questão migratória,
poderão encontrar uma aplicação coerente com as expectativas se souberem
colocar a pessoa no centro das decisões políticas a todos os níveis, olhando a
humanidade como uma única família e os homens como irmãos, no respeito pelas
diferenças e convicções de consciência de cada um.
Com efeito, ao abordar a questão migratória não se poderão negligenciar as
relativas implicações culturais, a começar pelas relacionadas com a pertença
religiosa. O extremismo e o fundamentalismo encontram terreno fértil não só numa
instrumentalização da religião para fins de poder, mas também no vazio de ideais e
na perda de identidade – inclusive religiosa – que contradistingue dramaticamente
o chamado Ocidente. De tal vazio nasce o medo que impele a ver o outro como um
perigo e um inimigo, a fechar-se em si mesmo, refugiando-se em posições
preconceituosas. Por isso o fenómeno migratório põe um sério interrogativo
cultural, ao qual não nos podemos eximir de responder. Assim o acolhimento pode
ser ocasião propícia para uma nova compreensão e abertura de horizonte, tanto
para quem é acolhido, que tem o dever de respeitar os valores, as tradições e as
leis da comunidade que o acolhe, como para esta última chamada a valorizar aquilo
que cada imigrante pode oferecer para benefício de toda a comunidade. Neste
contexto, a Santa Sé renova o seu compromisso de estabelecer, em campo
ecuménico e inter-religioso, um diálogo sincero e leal que, valorizando as
peculiaridades e a identidade própria de cada um, favoreça uma convivência
harmoniosa entre todas as componentes sociais. […]

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MENSAGEM DE SUA SANTIDADE PAPA FRANCISCO PARA A CELEBRAÇÃO DO DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELO CUIDADO DA CRIAÇÃO Usemos de misericórdia para com a nossa casa comum

1. A terra clama…
[…] O planeta continua a aquecer, em parte devido à atividade humana: o ano de

2015 foi o ano mais quente de que há registo e, provavelmente, o ano de 2016 sê-
lo-á ainda mais. Isto provoca secura, inundações, incêndios e acontecimentos

meteorológicos extremos cada vez mais graves. As mudanças climáticas
contribuem também para a dolorosa crise dos migrantes forçados. Os pobres do
mundo, embora sejam os menos responsáveis pelas mudanças climáticas, são os
mais vulneráveis e já sofrem os seus efeitos. […]
3. Exame de consciência e arrependimento
[…] Em 2000, também ele um Ano Jubilar, o meu predecessor São João Paulo II
convidou os católicos a arrepender-se da intolerância religiosa passada e presente,
bem como das injustiças cometidas contra os judeus, as mulheres, os povos
indígenas, os imigrantes, os pobres e os nascituros. Neste Jubileu Extraordinário da
Misericórdia, convido cada um a fazer algo parecido. Como indivíduos, acostumados
a estilos de vida induzidos quer por uma cultura equivocada do bem-estar quer por
um «desejo desordenado de consumir mais do que realmente se tem
necessidade»,[10] e como participantes dum sistema que «impôs a lógica do lucro
a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza»,[11]
arrependamo-nos do mal que estamos a fazer à nossa casa comum. […]

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MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO PARA A CELEBRAÇÃO DO XLIX DIA MUNDIAL DA PAZ 1o DE JANEIRO DE 2016 VENCE A INDIFERENÇA E CONQUISTA A PAZ

[…] Há muitas organizações não-governamentais e grupos sócio-caritativos, dentro
da Igreja e fora dela, cujos membros, por ocasião de epidemias, calamidades ou
conflitos armados, enfrentam fadigas e perigos para cuidar dos feridos e doentes e
para sepultar os mortos. Ao lado deles, quero mencionar as pessoas e as
associações que socorrem os emigrantes que atravessam desertos e sulcam mares
à procura de melhores condições de vida. Estas acções são obras de misericórdia
corporal e espiritual, sobre as quais seremos julgados no fim da nossa vida. […]
[…] Além disso, quantas famílias, no meio de inúmeras dificuldades laborais e
sociais, se esforçam concretamente, à custa de muitos sacrifícios, por educar os
seus filhos «contracorrente» nos valores da solidariedade, da compaixão e da
fraternidade! Quantas famílias abrem os seus corações e as suas casas a quem está
necessitado, como os refugiados e os emigrantes! Quero agradecer de modo
particular a todas as pessoas, famílias, paróquias, comunidades religiosas,
mosteiros e santuários que responderam prontamente ao meu apelo a acolher uma
família de refugiados.[28] […]
[…] Também os Estados são chamados a cumprir gestos concretos, actos corajosos
a bem das pessoas mais frágeis da sociedade, como os reclusos, os migrantes, os
desempregados e os doentes.[…]
[…] Quanto aos migrantes, quero dirigir um convite a repensar as legislações
sobre as migrações, de modo que sejam animadas pela vontade de dar
hospitalidade, no respeito pelos recíprocos deveres e responsabilidades, e possam
facilitar a integração dos migrantes. Nesta perspectiva, dever-se-ia prestar especial
atenção às condições para conceder a residência aos migrantes, lembrando-se de
que a clandestinidade traz consigo o risco de os arrastar para a criminalidade.[…]

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PRIMEIRAS VÉSPERAS DA SOLENIDADE DE MARIA SANTÍSSIMA MÃE DE DEUS E TE DEUM DE AGRADECIMENTO PELO ANO QUE PASSOU HOMILIA DO PAPA FRANCISCO

[…] E, contudo, hoje os nossos olhos têm necessidade de focalizar de modo
particular os sinais que Deus nos concedeu, para sentir concretamente a força do
seu amor misericordioso. Não podemos esquecer que muitos dias foram marcados
pela violência, pela morte, por sofrimentos indizíveis de tantos inocentes, de
refugiados obrigados a deixar a sua pátria, de homens, mulheres e crianças sem
habitação estável, alimento e sustento. Contudo, quantos gestos grandiosos de
bondade, amor e solidariedade encheram os dias deste ano, mesmo se não se
tornaram notícias através dos telejornais. As coisas boas não são notícia. Estes
sinais de amor não podem e não devem ser obscurecidos pela prepotência do mal.
O bem vence sempre, mesmo se nalguns momentos pode parecer mais frágil e
escondido. […]

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FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA DE NAZARÉ PAPA FRANCISCO ANGELUS

Depois do Angelus
Dirijo neste momento o meu pensamento aos numerosos migrantes cubanos que se
encontram em dificuldade na América Central, muitos dos quais são vítimas do
tráfico de seres humanos. Convido os países da Região a renovar com generosidade
todos os esforços necessários para encontrar uma solução tempestiva a este drama
humanitário. […]

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MENSAGEM URBI ET ORBI DO PAPA FRANCISCO NATAL 2015

[…] Onde nasce Deus, nasce a esperança; e, onde nasce a esperança, as pessoas
reencontram a dignidade. E, todavia, ainda hoje há multidões de homens e
mulheres que estão privados da sua dignidade humana e, como o Menino Jesus,
sofrem o frio, a pobreza e a rejeição dos homens. Chegue hoje a nossa
solidariedade aos mais inermes, sobretudo às crianças-soldado, às mulheres que
sofrem violência, às vítimas do tráfico de seres humanos e do narcotráfico.
Não falte o nosso conforto às pessoas que fogem da miséria ou da guerra, viajando
em condições tantas vezes desumanas e, não raro, arriscando a vida. Sejam
recompensados com abundantes bênçãos quantos, indivíduos e Estados,
generosamente se esforçam por socorrer e acolher os numerosos migrantes e
refugiados, ajudando-os a construir um futuro digno para si e seus entes queridos e
a integrar-se nas sociedades que os recebem.[…]