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PAPA FRANCISCO REGINA COELI

Amados irmãos e irmãs, bom dia!
[…] A partir de então, estes mesmos sentimentos animam a Igreja, a Comunidade
do Ressuscitado. Todos nós somos a comunidade do Ressuscitado! Se por vezes, à
primeira impressão, pode parecer que as trevas do mal e a fadiga do dia a dia têm
a supremacia, a Igreja sabe com certeza que sobre quantos seguem o Senhor Jesus
já resplandece a luz da Páscoa que não conhece ocaso. O grande anúncio da
Ressurreição infunde nos corações dos crentes uma alegria íntima e uma esperança
invencível. Verdadeiramente Cristo ressuscitou! Também hoje a Igreja continua a
fazer ressoar este anúncio jubiloso: a alegria e a esperança continuam a escorrer
nos corações, nos rostos, nos gestos, nas palavras. Todos nós, cristãos, estamos
chamados a comunicar esta mensagem de ressurreição a quantos encontramos,
sobretudo a quem sofre, aos que estão sozinhos, a quantos se encontram em
condições precárias, aos doentes, aos refugiados, aos marginalizados. A todos
façamos chegar um raio da luz de Cristo ressuscitado, um sinal do seu poder
misericordioso. […]

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MENSAGEM URBI ET ORBI DO PAPA FRANCISCO PÁSCOA DE 2016

[…] O Cristo ressuscitado, anúncio de vida para toda a humanidade, reverbera
através dos séculos e nos convida não esquecer dos homens e mulheres na sua
jornada em busca de um futuro melhor; grupos cada vez mais números de
migrantes e refugiados – entre os quais muitas crianças – que fogem da guerra, da
fome, da pobreza e da injustiça social. Esses nossos irmãos e irmãs, que nos seus
caminhos encontram, com demasiada frequência, a morte ou, ao menos, a recusa
dos que poderiam oferecer-lhes hospitalidade e ajuda. Que a próxima rodada da
Cúpula Mundial Humanitária não deixe de colocar no centro a pessoa humana com
a sua dignidade e possa desenvolver políticas capazes de ajudar e proteger as
vítimas de conflitos e de outras situações de emergência, especialmente os mais
vulneráveis e os que sofrem perseguição por motivos étnicos e religiosos. […]

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VIA-SACRA PRESIDIDA PELO PAPA FRANCISCO «DEUS É MISERICÓRDIA»

[…] Instintivamente somos levados a fugir do sofrimento, porque o sofrimento nos
causa repulsa. Quantos rostos desfigurados pelas aflições da vida se cruzam
connosco e, com muita frequência, viramos a cara para o outro lado. Como é
possível não ver o rosto do Senhor no rosto dos milhões de deslocados, refugiados,
desterrados que fogem desesperadamente do horror das guerras, perseguições e
ditaduras? Para cada um deles, com o seu rosto irrepetível, Deus sempre Se
manifesta como um socorrista corajoso. Como Verónica, a mulher sem rosto, que
limpou amorosamente o rosto de Jesus. […]

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HOMILIA DO PAPA FRANCISCO

[…]Mas isto é apenas o início. A humilhação que Jesus sofre, torna-se extrema na
Paixão: é vendido por trinta moedas de prata e traído com um beijo por um
discípulo que escolhera e chamara amigo. Quase todos os outros fogem e
abandonam-No; Pedro renega-O três vezes no pátio do Sinédrio. Humilhado na
alma com zombarias, insultos e escarros, sofre no corpo violências atrozes: as
cacetadas, a flagelação e a coroa de espinhos tornam irreconhecível o seu aspeto.
Sofre também a infâmia e a iníqua condenação das autoridades, religiosas e
políticas: é feito pecado e reconhecido injusto. Depois, Pilatos envia-o a Herodes, e
este devolve-O ao governador romano: enquanto Lhe é negada toda a justiça,
Jesus sente na própria pele também a indiferença, porque ninguém se quer assumir
a responsabilidade do seu destino. E penso em tantas pessoas, tantos
marginalizados, tantos deslocados, tantos refugiados, de cujo destino muitos não
querem assumir a responsabilidade. A multidão, que pouco antes O aclamara, troca
os louvores por um grito de condenação, preferindo que, em vez d’Ele, seja
libertado um assassino. Chega assim à morte de cruz, a mais dolorosa e
vergonhosa, reservada para os traidores, os escravos e os piores criminosos. Mas a
solidão, a difamação e o sofrimento não são ainda o ponto culminante do seu
despojamento. Para ser solidário connosco em tudo, na cruz experimenta também
o misterioso abandono do Pai. No abandono, porém, reza e entrega-Se: «Pai, nas
tuas mãos entrego o meu espírito» (Lc23, 46). Suspenso no patíbulo, além da
zombaria, enfrenta ainda a última tentação: a provocação para descer da cruz,
vencer o mal com a força e mostrar o rosto dum deus poderoso e invencível. Mas
Jesus, precisamente aqui, no ápice da aniquilação, revela o verdadeiro rosto de
Deus, que é misericórdia. Perdoa aos seus algozes, abre as portas do paraíso ao
ladrão arrependido e toca o coração do centurião. Se é abissal o mistério do mal,
infinita é a realidade do Amor que o atravessou, chegando até ao sepulcro e à
morada dos mortos, assumindo todo o nosso sofrimento para o redimir, levando luz
às trevas, vida à morte, amor ao ódio. […]

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EXORTAÇÃO APOSTÓLICA PÓS-SINODAL AMORIS LÆTITIA DO SANTO PADRE FRANCISCO AOS BISPOS AOS PRESBÍTEROS E AOS DIÁCONOS ÀS PESSOAS CONSAGRADAS AOS ESPOSOS CRISTÃOS E A TODOS OS FIÉIS LEIGOS SOBRE O AMOR NA FAMÍLIA

[…] 30. Cada família tem diante de si o ícone da família de Nazaré, com o seu dia-
a-dia feito de fadigas e até de pesadelos, como quando teve que sofrer a violência

incompreensível de Herodes, experiência que ainda hoje se repete tragicamente em
muitas famílias de refugiados descartados e inermes. […]
46. As migrações « constituem outro sinal dos tempos, que deve ser enfrentado e
compreendido com todo o seu peso de consequências sobre a vida familiar».30 O
último Sínodo atribuiu grande importância a esta problemática ao reconhecer que,
«sob modalidades diferentes, atinge popula- ções inteiras em várias partes do
mundo. A Igreja desempenhou, neste campo, papel de primária grandeza. A
necessidade de manter e desenvolver este testemunho evangélico (cf. Mt 25, 35)
aparece hoje mais urgente do que nunca. (…) A mobilidade humana, que
corresponde ao movimento histórico natural dos povos, pode revelar-se uma
verdadeira riqueza tanto para a família que emigra como para o país que a recebe.
Caso diferente é a migração forçada das famílias, em consequência de situações de
guerra, perseguição, pobreza, injustiça, marcada pelas vicissitudes duma viagem
que, muitas vezes, põe em perigo a vida, traumatiza as pessoas e destabiliza as
famílias. O acompanhamento dos migrantes exige uma pastoral específica dirigida
tanto às famílias que emigram como aos membros dos núcleos familiares que
ficaram nos lugares de origem. Isto deve ser feito respeitando as suas culturas, a
formação religiosa e humana da sua origem, a riqueza espiritual dos seus ritos e
tradições, inclusive através dum cuidado pastoral específico. (…) As migrações
revelam-se particularmente dramáticas e devastadoras tanto para as famílias como
para as pessoas, quando têm lugar à margem da legalidade e são sustentadas por
circuitos internacionais do tráfico de pessoas. O mesmo se pode dizer quando
envolvem mulheres ou crianças não acompanhadas, forçadas a estadias
prolongadas nos locais de passagem entre um país e outro, nos campos de
refugiados, onde não é possível iniciar um percurso de integração. A pobreza
extrema e outras situações de desintegração induzem, por vezes, as famílias até
mesmo a vender os próprios filhos para a prostituição ou o tráfico de órgãos».31
«As perseguições dos cristãos, bem como as de minorias étnicas e religiosas, em
várias partes do mundo, especialmente no Médio Oriente, constituem uma grande
prova: não só para a Igreja mas também para toda a comunidade internacional.
Devem ser apoiados todos os esforços para favorecer a permanência das famílias e
das comunidades cristãs nas suas terras de origem».32
47. Os Padres dedicaram especial atenção também « às famílias das pessoas com
deficiência, já que tal deficiência, ao irromper na vida, gera um desafio profundo e
inesperado e transtorna os equilíbrios, os desejos, as expectativas. (…) Merecem
grande admiração as famílias que aceitam, com amor, a prova difícil dum filho
deficiente. Dão à Igreja e à sociedade um valioso testemunho de fidelidade ao dom

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da vida. A família poderá descobrir, juntamente com a comunidade cristã, novos
gestos e linguagens, formas de compreensão e identidade, no percurso de
acolhimento e cuidado do mistério da fragilidade. As pessoas com deficiência são,
para a família, um dom e uma oportunidade para crescer no amor, na ajuda
recíproca e na unidade. (…) A família que aceita, com os olhos da fé, a presença de
pessoas com deficiência poderá reconhecer e garantir a qualidade e o valor de cada
vida, com as suas necessidades, os seus direitos e as suas oportunidades. Tal
família providenciará assistência e cuidados e promoverá companhia e carinho em
cada fase da vida » Quero sublinhar que a aten- ção prestada tanto aos migrantes
como às pessoas com deficiência é um sinal do Espírito. Pois ambas as situações
são paradigmáticas: põem especialmente em questão o modo como se vive, hoje, a
lógica do acolhimento misericordioso e da integração das pessoas frágeis. […]

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DISCURSO DO PAPA FRANCISCO AOS PARTICIPANTES NO ENCONTRO PROMOVIDO PELO HARVARD WORLD MODEL UNITED NATIONS

Queridos amigos, bom dia!
[…] Os argumentos e as problemáticas que tratastes têm um rosto. Com efeito,
cada um de vós pode descrever as esperanças e os sonhos, os desafios e os
sofrimentos que caracterizam o povo do vosso país. Nestes dias aprendestes muito
uns com os outros e recordar-vos-eis reciprocamente que, por detrás de cada
dificuldade que o mundo enfrenta há homens e mulheres, crianças e idosos,
pessoas como vós. Há famílias e indivíduos que vivem a lutar todos os dias, que
procuram cuidar dos próprios filhos e providenciar para eles não só o futuro mas
também as necessidades elementares do hoje. Assim, muitos que são atingidos
pelos problemas mais graves do mundo atual, pela violência e intolerância,
tornaram-se refugiados, tragicamente obrigados a abandonar as suas casas,
expropriados da sua terra e da liberdade. […]
Espero também que esta vossa experiência vos tenha levado a ver o compromisso
da Igreja Católica em servir as necessidades dos pobres e dos refugiados, apoiar as
famílias e as comunidades e proteger a inalienável dignidade e os direitos de cada
membro da família humana. Nós cristãos acreditamos que Jesus nos chama para
servir os nossos irmãos e irmãs, a cuidar dos outros, independentemente da sua
proveniência e das circunstâncias. Todavia, não é somente um distintivo dos
cristãos mas uma chamada universal radicada na nossa comum humanidade, algo
que possuímos como indivíduos, que temos dentro como pessoas humanas![…]

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PAPA FRANCISCO AUDIÊNCIA GERAL

[…] Por vezes, também nós podemos viver uma espécie de exílio, quando a
solidão, o sofrimento e a morte nos fazem pensar que fomos abandonados por
Deus. Quantas vezes ouvimos estas palavras: «Deus esqueceu-se de mim»: são
pessoas que sofrem e se sentem abandonadas. E quantos irmãos nossos, por sua
vez, estão a viver neste tempo uma real e dramática situação de exílio, distantes
da sua pátria, tendo ainda nos olhos os destroços das suas casas, no coração o
medo e muitas vezes, infelizmente, a dor pela perda de entes queridos! Nestes
casos, podemos questionar-nos: onde está Deus? Como é possível que tanto
sofrimento possa abater-se sobre homens, mulheres e crianças inocentes? E
quando procuram entrar nalguma parte são-lhe fechadas as portas. E estão ali, na
fronteira porque estão fechadas muitas portas e muitos corações. Os migrantes de
hoje que sofrem o frio, sem alimentos e não podem entrar, não sentem o
acolhimento. Fico muito feliz quando ouço ou vejo que há nações, governantes, que
lhes abrem o coração e as portas! […]

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VIGÍLIA DE ORAÇÃO COM OS JOVENS DISCURSO DO SANTO PADRE

Queridos jovens, boa noite!
[…] Amigos, Jesus é o Senhor do risco, o Senhor do sempre «mais além». Jesus
não é o Senhor do conforto, da segurança e da comodidade. Para seguir a Jesus, é
preciso ter uma boa dose de coragem, é preciso decidir-se a trocar o sofá por um
par de sapatos que te ajudem a caminhar por estradas nunca sonhadas e nem
mesmo pensadas, por estradas que podem abrir novos horizontes, capazes de
contagiar-te a alegria, aquela alegria que nasce do amor de Deus, a alegria que
deixa no teu coração cada gesto, cada atitude de misericórdia. Caminhar pelas
estradas seguindo a «loucura» do nosso Deus, que nos ensina a encontrá-Lo no
faminto, no sedento, no maltrapilho, no doente, no amigo em maus lençóis, no
encarcerado, no refugiado e migrante, no vizinho que vive só. Caminhar pelas
estradas do nosso Deus, que nos convida a ser atores políticos, pessoas que
pensam, animadores sociais; que nos encoraja a pensar uma economia mais
solidária do que esta. Em todos os campos onde vos encontrais, o amor de Deus
convida-vos a levar a Boa Nova, fazendo da própria vida um dom para Ele e para os
outros. Isto significa ser corajosos; isto significa ser livres. […]

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DISCURSO DO PAPA FRANCISCO NO ENCONTRO COM JUÍZES E MAGISTRADOS COMPROMETIDOS CONTRA O TRÁFICO DE SERES HUMANOS

Boa tarde.
Saúdo-vos cordialmente e renovo a expressão da minha estima pela vossa
colaboração no contribuir para o progresso humano e social, do qual a Pontifícia
Academia das Ciências Sociais é capaz.
Se me alegro por esta contribuição e me congratulo convosco é também em
consideração do nobre serviço que podeis oferecer à humanidade, aprofundando
quer o conhecimento deste fenómeno tão atual, isto é a indiferença no mundo
globalizado e as suas formas extremas, quer as soluções face a tal desafio,
procurando melhorar as condições de vida dos nossos irmãos e irmãs mais
necessitados. Seguindo Cristo, a Igreja está chamada a comprometer-se. Ou seja,
não vale o aforismo do Iluminismo segundo o qual a Igreja não deve entrar em
política; a Igreja deve entrar na «grande» política! Porque — cito Paulo vi — a
política é uma das formas mais elevadas do amor e da caridade. E a Igreja, está
chamada também a ser fiel às pessoas, ainda mais quando se consideram as
situações nas quais se tocam as chagas e o sofrimento dramático, nas quais estão
envolvidos os valores, a ética, as ciências sociais e a fé; situações em que o vosso
testemunho como pessoas e humanistas, unido à vossa específica competência
social, é particularmente apreciado.
Durante os últimos anos não faltaram importantes atividades da Pontifícia
Academia das Ciências Socias sob o vigoroso impulso desta sua Presidente, do
Chanceler e de alguns colaboradores externos de grande prestígio, aos quais
agradeço de coração. Atividade em defesa da dignidade e liberdade dos homens e
mulheres de hoje e, em particular, atividade dirigida a extirpar o comércio e o
tráfico de pessoas e as novas formas de escravidão como o trabalho forçado, a
prostituição, o tráfico de órgãos, o narcotráfico, a criminalidade organizada. Como
disse o meu predecessor Bento XVI, e eu mesmo afirmei em diversas ocasiões,
estes são verdadeiros crimes contra a humanidade que devem ser reconhecidos
como tais por todos os líderes religiosos, políticos e sociais e plasmados nas leis
nacionais e internacionais.
O encontro com os líderes religiosos das principais religiões que hoje influenciam o
mundo global, a 2 de dezembro de 2014, assim como o vértice dos administradores
e dos presidentes de câmaras municipais das cidades mais importantes do mundo,
a 21 de julho de 2015, expressaram a vontade desta Instituição de perseguir a
eliminação das novas formas de escravidão. Conservo uma recordação particular
destes dois encontros, como também dos significativos seminários dos jovens,
todos sob iniciativa da Academia. Alguém poderia pensar que a Academia deveria
mover-se mais num âmbito de ciências puras, de considerações mais teóricas: e
isto responde certamente a uma conceção iluminista daquilo que deve ser uma
Academia. Uma Academia deve ter raízes, e raízes no concreto, porque se não

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corre o risco de fomentar uma reflexão líquida, que se evapora e não chega a nada.
Este divórcio entre a ideia e a realidade é claramente um fenómeno cultural do
passado, e mais precisamente do iluminismo, mas que tem ainda a sua incidência.
Ora, inspirada pelos mesmos anseios, a Academia convocou a vós, juízes e
magistrados de todo o mundo, com experiência e sabedoria prática na erradicação
do comércio, do tráfico de pessoas e da criminalidade organizada. Viestes aqui em
representação dos vossos colégios com a louvável intenção de progredir no pleno
conhecimento de tais flagelos e, consequentemente, de manifestar a vossa
insubstituível missão diante dos novos desafios que nos apresenta a globalização da
indiferença, respondendo à crescente exigência da sociedade e no respeito das leis
nacionais e internacionais. Assumir a própria vocação significa também sentir-se e
proclamar-se livre. Juízes e magistrados livres: do quê? Das pressões dos
governos; livres das instituições privadas e, naturalmente, livres das «estruturas de
pecado» da qual falou o meu predecessor são João Paulo ii, em particular da
«estrutura de pecado» livres do crime organizado. Sei que sofreis pressões e
ameaças em tudo isto; e sei também que hoje ser juiz ou magistrados significa
arriscar a vida, e isto merece um reconhecimento à coragem dos que querem
continuar a ser livres no exercício da própria função jurídica. Sem esta liberdade, o
poder judiciário de uma nação se corrompe e semeia corrupção. Todos conhecemos
a caricatura da justiça para estes casos, não? A justiça com os olhos vendados, à
qual cai a venda, tapando-lhe a boca.
Felizmente, para a atuação deste complexo e delicado projeto humano e cristão,
isto é, libertar a humanidade das novas escravidões e do crime organizado, que a
Academia realiza seguindo a minha solicitação, pode-se contar também com a
importante e decisiva sinergia com as Nações Unidas. Há uma consciência maior
disto, uma forte consciência. Estou feliz que os representantes dos 193 países
membros da ONU tenham aprovado unanimemente os novos objetivos de
desenvolvimento sustentável e integral, em particular o número 8.7, que recita:
«Tomar medidas imediatas e eficazes para erradicar o trabalho forçado, acabar com
a escravidão moderna e o tráfico de pessoas, e assegurar a proibição e eliminação
das piores formas de trabalho infantil, incluindo recrutamento e utilização de
crianças-soldado, e até 2025 acabar com o trabalho infantil em todas as suas
formas». Eis a Resolução. Com razão podemos dizer que realizar tais objetivos
agora é um imperativo moral para todos os países membros da ONU.
Portanto, é preciso gerar um movimento transversal e ondular, uma «onda boa»,
que abrace a sociedade inteira do alto para baixo e vice-versa, da periferia para o
centro e vice-versa, dos líderes até às comunidades, e dos povos e da opinião
pública até aos mais elevados níveis gerenciais. A realização disto exige que, assim
como já fizeram os líderes religiosos, sociais e os presidentes das câmaras
municipais, também os juízes tomem plena consciência deste desafio, sintam a
importância da própria responsabilidade diante da sociedade e partilhem as
próprias experiências e boas práticas e ajam em conjunto — é importante, em
comunhão, em comunidade, que ajam unidos — a fim de abrir atalhos e caminhos
novos de justiça em benefício da promoção da dignidade humana, da liberdade, da
responsabilidade, da felicidade e, definitivamente, da paz. Sem ceder ao gosto da
simetria, poderíamos dizer que o juiz está para a justiça como o religioso e o
filósofo para a moral, e o governante ou qualquer figura personificada pelo poder
soberano com a política. Mas só na figura do juiz a justiça se reconhece como a

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primeira qualidade da sociedade. É algo que deve ser recuperado, porque a
tendência cada vez mais forte é «liquidificar» a figura do juiz através das pressões
e de outras situações que mencionei antes. E todavia é o primeiro atributo da
sociedade. Manifesta-se na própria tradição bíblica, não é verdade? Moisés precisou
instituir 70 juízes a fim de que o ajudassem, julgassem os casos. É o juiz a quem se
recorre. E também neste processo de dissolução, os aspetos contundentes,
concretos da realidade interessam os povos. Isto é, os povos têm uma entidade
que lhes dá consistência, os faz crescer, ter os próprios projetos, aceitar as suas
falências e ideais; contudo, estão a sofrer um processo de dissolução, e tudo o que
é a consistência real de um povo tende a transformar-se na simples identidade
nominal de um cidadão. Mas um povo não é a mesma coisa que um grupo de
cidadãos. O juiz é o primeiro atributo de uma sociedade de povo.
A Academia, ao convocar os juízes, aspira principalmente a colaborar com base nas
próprias possibilidades, segundo o mandato da ONU. É oportuno agradecer aqui
àquelas nações que, através dos embaixadores junto da Santa Sé, não se
demonstraram indiferentes nem arbitrariamente críticas mas, ao contrário,
colaboraram ativamente com a Academia para a realização desta cimeira. Os
embaixadores que não sentiram tal necessidade, que lavaram as mãos ou que
pensaram que não era muito importante, são esperados para a próxima reunião.
Peço aos juízes que realizem a própria vocação e missão essencial: estabelecer a
justiça sem a qual não há ordem, desenvolvimento sustentável e integral nem paz
social. Sem dúvida, um dos maiores males sociais do mundo moderno é a
corrupção a todos os níveis, que debilita qualquer governo, enfraquece a
democracia participativa e a atividade da justiça. A vós juízes cabe fazer justiça, e
peço-vos uma atenção especial ao fazer justiça no âmbito do comércio e do tráfico
de pessoas e, face a isto e ao crime organizado, peço-vos para não cairdes na teia
de aranha das corrupções.
Quando dizemos «fazer justiça», como bem sabeis, não pretendemos que se deva
procurar o castigo por si só, mas que, quando forem cominadas as penas, estas
sejam aplicadas para a reeducação dos responsáveis, de tal modo que se lhes
possa dar uma esperança de reinserção na sociedade. Ou seja, não existe pena
válida sem esperança. Uma pena fechada em si mesma, que não dá lugar à
esperança é uma tortura, não é uma pena. Baseio-me nisto também para confirmar
seriamente a posição da Igreja contra a pena de morte. Certamente, dizia-me um
teólogo que na conceção da teologia medieval e pós-medieval a pena de morte
continha a esperança: «confiamo-los a Deus». Mas os tempos mudaram e já não é
assim. Deixemos que seja Deus a escolher o momento… A esperança da reinserção
na sociedade: «Nem sequer o homicida perde a sua dignidade pessoal e o próprio
Deus Se constitui seu garante» (São João Paulo II, Evangelium vitae, 9). E se esta
delicada conjunção entre justiça e misericórdia — que no fundo é preparar para
uma reinserção — válida para os responsáveis pelos crimes contra a humanidade
como por qualquer outro ser humano, a fortiori, sobretudo para as vítimas que,
como indica o próprio nome, são mais passivas que ativas no exercício da sua
liberdade, tendo caído na armadilha dos novos caçadores de escravos. Vítimas
muitas vezes traídas no mais íntimo e sagrado da sua pessoa, isto é no amor que
aspiram dar e receber, e que as suas famílias lhes devem ou lhes foi prometido por
pretendentes ou maridos, os quais ao contrário acabam por as vender no mercado
do trabalho forçado, da prostituição ou do tráfico de órgãos.

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Os juízes são chamados hoje mais do que nunca a dedicar grande atenção às
necessidades das vítimas. São elas as primeiras a ser reabilitadas e reintegradas na
sociedade, e por elas devem ser perseguidos numa luta sem fronteiras traficantes e
carnífices. Não é válido o ditado: «São coisas que existem desde que o mundo é
mundo». As vítimas podem mudar e com efeito sabemos que mudam de vida com a
ajuda dos bons juízes, das pessoas que as assistem e de toda a sociedade.
Sabemos que muitas destas pessoas são homens e mulheres, advogados e
políticos, escritores brilhantes ou com cargos de sucesso para servir de modo válido
o bem comum. Sabemos como é importante que cada vítima encontre a força de
falar do seu ser vítima como de um passado que superou corajosamente sendo
agora um sobrevivente ou, melhor dizendo, uma pessoa com qualidade de vida,
com dignidade recuperada e liberdade assumida. Em relação a este tema da
reinserção, gostaria de contar uma experiência empírica. Quando vou a uma
cidade, gosto de visitar o cárcere. Visitei diversos. É curioso, sem querer ofender
alguém, mas a minha impressão geral foi que as prisões nas quais o diretor é uma
mulher vão melhor do que aquelas onde o diretor é um homem. Isto não é
feminismo, é curioso. A mulher, em relação ao tema da reinserção, tem uma
intuição especial, um tato particular, sem perder energias, para recolocar estas
pessoas, para as reinserir. Alguns o atribuem à raiz da maternidade. Mas é curioso,
digo-o como experiência pessoal, vale a pena refletir sobre isto. E aqui na Itália há
uma elevada percentagem de cárceres dirigidos por mulheres, muitas, jovens,
respeitadas e que sabem tratar com os presos. Outra experiência pessoal é que nas
audiências de quarta-feira não é raro que participe um grupo de presos — de uma
ou outra prisão — trazidos pelo diretor ou diretora; também estes são gestos de
reinserção.
Vós sois chamados a dar esperança no fazer justiça. Desde a viúva que
insistentemente pede justiça (cf. Lc 18, 1-8) até às vítimas de hoje, todas
alimentam um anseio de justiça, como esperança que a injustiça que atravessa este
mundo não seja a última realidade, não tenha a última palavra.
Muitas vezes pode ser útil aplicar, segundo as modalidades próprias de cada país,
de cada continente, de cada tradição jurídica, a práxis italiana de recuperar os bens
criminosamente adquiridos por traficantes e por delinquentes, para os oferecer à
sociedade e, na realidade, para a reinserção das vítimas. A reabilitação das vítimas
e a sua reinserção na sociedade, sempre realmente possível, é o maior bem que
podemos praticar a eles, à comunidade e à paz social. Certamente é um trabalho
difícil. Não termina com a sentença. Vai além, fazendo com que haja um
acompanhamento, um crescimento, uma reinserção, uma reabilitação da vítima e
do carnífice.
Se há algo que permeia as bem-aventuranças evangélicas e o protocolo do juízo
divino com o qual todos seremos julgados segundo o Evangelho de Mateus (cap. 5)

é o tema da justiça: «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, bem-
aventurados os que choram, bem-aventurados os mansos, bem-aventurados os

pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus!». Eles ou elas — e aqui referimo-
nos em particular aos juízes — terão a recompensa maior: possuirão a terra, serão

chamado e serão filhos de Deus, verão Deus, e rejubilarão eternamente junto do
Pai.
Com tal espírito ouso pedir aos juízes, aos magistrados a e aos académicos que
continuem a sua obra e realizem, nos limites das suas possibilidades e com a ajuda

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da graça, as felizes iniciativas que honram o seu serviço às pessoas e ao bem
comum. Obrigado!

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PAPA FRANCISCO ANGELUS

Depois do Angelus
[…] Como sinal concreto de compromisso pela paz e pela vida gostaria de citar e
expressar admiração pela iniciativa dos corredores humanitários para os refugiados,
inaugurada recentemente na Itália. Este projeto-piloto, que une a solidariedade e a
segurança, permite ajudar pessoas que fogem da guerra e da violência, como os
cem refugiados já transferidos para a Itália, entre os quais crianças doentes,
pessoas deficientes, viúvas de guerra com filhos e idosos. Alegro-me também
porque esta iniciativa é ecuménica, sendo apoiada pela Comunidade de Santo
Egídio, Federação das Igrejas Evangélicas Italianas, Igrejas Valdenses e Metodistas.
[…]